Uma reflexão sobre saúde mental durante a busca por emprego
- Lívia Patrícia Batista da Silva
- 16 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
Se eu não investisse na minha saúde mental, minha recaída na depressão teria sido muito maior. Estou sem um emprego fixo desde janeiro de 2023 e isso me enche de tristeza e de vergonha. Nem sei se deveria me abrir dessa forma aqui, o mundo profissional não é para os vulneráveis; ainda assim vou explicar:
A pauta da saúde mental tem ganhado cada vez mais destaque e é uma possível mina de ouro de cliques, principalmente quando uma celebridade assume que está passando ou passou por algum transtorno. E o que nós, ""adultos em idade produtiva"", jornalistas, estamos fazendo pela saúde mental dentro da nossa área?
Muitos de nós já viram pesquisas que apontam que os profissionais de comunicação e educação estão entre os mais frustrados e que mais desistem de trabalhar na sua área; eu conheço pessoas excelentes que desistiram de carreiras na educação e no jornalismo, principalmente pessoas pretas e pessoas de famílias com um orçamento limitado; contas precisam ser pagas e elas não se importam com a desvalorização do trabalho e a redução das redações.
A falta de emprego, a falta de acesso que não ter dinheiro causa, a frustração causada pela dificuldade de colocação no mercado de trabalho associada à ideia de que nós, pessoas não herdeiras, só valemos algo quando estamos produzindo, ainda são, na minha opinião, fatores muito negligenciados quando se falamos de adoecimento entre trabalhadores. E eu ainda nem falei da distorção do "empreendedorismo", da demanda de tornar tudo um conteúdo (como esse post será assim que for publicado) e das remunerações com valores risíveis.
Se a gente parar para pensar, o problema é algo generalizado, fato social, do sistema; todo mundo conhece uns 10 com as mesmas questões. Mas, no fundo, no fundo, a gente, que está passando pelo problema, fragilizado, vai dormir pensando se não estudou o suficiente, se está sendo *mal falado pelos pares, se é mal vestido, se está sendo demandado, se é feio demais e outros milhões de "ses". Muitos "se rendem" ao desvio e acúmulo de funções presente em muitas vagas de comunicação atuais, mas não são todos que aguentam (e nem deveriam).
Colega, - principalmente os pretos, nordestinos, LGBTQIAP+, mulheres, etc. - eu te peço encarecidamente: não passe por isso sozinho. Converse com pessoas de confiança e, dependendo da situação, procure ajuda profissional.
Uma licença para falar de mim (todos nós só falamos do nosso local)
Sou a filha mais velha, a primeira neta da família da minha mãe a passar e me formar numa universidade federal. Da primeira geração da clássica família preta emergente, que nunca passou fome, como os pais na infância, mas ainda carrega um profundo medo da escassez ( vale assistir a fala de Taís Araújo em uma entrevista à jornalista Maria Fortuna) Cujos pais se endividaram para que eu tivesse uma educação de qualidade, fizesse curso de inglês, fizesse ballet e, de certa forma, deu certo. Hoje tenho duas graduações em universidade federal, um certificado internacional de ballet clássico, falo inglês fluentemente e tudo isso parece inútil por não ter um emprego.
Não ter arranjado um emprego fixo e depender financeiramente dos meus pais do jogo de tarô, que é algo que eu escolhi restringir à minha vida espiritual e não tornar minha principal fonte de renda, ressoa no meu corpo quase que como uma traição ao esforço de anos da minha família. E eu voltei a adoecer.
Lido com transtorno de ansiedade e depressão desde os 14 anos de idade (também fui pioneira nisso entre meus familiares) e há alguns anos estou vivendo o "bota casaco, tira casaco" do diagnóstico de Autismo. A única certeza que tenho hoje é que preciso tomar remédio psiquiátrico diariamente, manter a prática de atividade física, me alimentar bem, me preocupar com Vitamina D, B12 e ferritina & que meu **QI é alto (131 de acordo com a última avaliação neuropsicológica que fiz).
Por mais que eu já tenha acompanhamento profissional rotineiro e uma rede de apoio extremamente amorosa, me vi caindo novamente em uma crise depressiva, tendo comportamentos autodestrutivos e pensamentos que já tinham sido há muito abandonados; tudo isso devido à falta de emprego e todas as pressões já citadas anteriormente. Ter esse autocuidado como rotina fez com que eu percebesse o risco antes que eu tivesse problemas mais graves.
Tá, e aí?
Eu sou uma mulher que acredita profundamente na força do coletivo. No geral, um dos primeiros passos deveria ser a união entre nós da classe, união mesmo. Para além das fofocas de quem escolheu uma pauta péssima ou conjugou algum verbo errado, fofocas produtivas: salário, alternativas para ter uma rotina mais saudável, opiniões e o que fazer para uma regulamentação melhor da nossa profissão...
Individualmente falando, vou ser obrigada a cair nas dicas de sempre: procure psicólogo, procure ter laços saudáveis, se alimente bem, durma... Eu sei, as contas não se pagam sozinhas, o banco não espera o LinkedIn arrumado e as 1000 etapas dos processos seletivos, mas a gente só tem como dar conta de tudo isso vivos e com a cabeça minimamente no lugar.
Anotem que é importante:
Centro de Valorização da Vida: 188
Procurar informações sobre atendimento social em núcleos universitários de psicologia
Beber água
Amanhã é outro dia
*Sobre mim, a depender, eu até concordo. Algumas a precisa escolher nossos conflitos, uma retirada estratégica; essa sabedoria vem com o tempo
**Não tem sido tão útil


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